Alfredo
Manhã de uma 4a.feira, novembro de 2018, ventos fortes e uma chuvinha deliciosa, dia começando, lá vou eu atender a mais um chamado de aplicativo.
Meu passageiro em questão é uma passageira, uma senhorinha pequena em estatura, frágil pelos anos vividos, de andar lento, olhos vívidos e meigos. O filho da mesma solicitou o translado, eis que dna. Carmelita entra no carro e me dá um doce "bom dia moço".
Começamos a conversar, e pelo desenrolar do diálogo, noto-a bastante nostálgica, falando da vida dos filhos; dois casados, outro divorciado, tudo trivial, nada muito diferente das famílias atuais, feitas ou desfeitas.
Quando surge a figura do seu marido na conversa, falecido há mais de 15 anos, o Alfredo.
Dona Carmelita, com seus 85 anos, é lúcida, rica em detalhes, bate papo gostoso, leve.
Falando dos primórdios do seu casamento, das dificuldades financeiras, e de quando decidiu que iria trabalhar numa tecelagem, foi lá conversou com o patrão, e deixou seus documentos para começar a trabalhar no dia seguinte, (estamos falando de 60 anos passados, época em que não se ouvia falar em desemprego, um bate papo informal e pronto, a pessoa estava empregada), como costureira, ofício que havia aprendido com sua mãe, nos primeiros anos de sua adolescência.
Alfredo, seu marido, e como a maioria dos homens de sua época, tinha como papel de esposo ser o provedor de casa, se regredirmos no tempo, no Brasil em 1959 mulher era do lar e ponto, nada de usar calça comprida, fumar, trabalhar fora, ter orgasmo...estamos falando de uma época que o marido fazia o papel de pai de sua mulher, apenas mudava o comando.
E Alfredo, apesar do momento financeiro precário, (conforme me relatou dna. Carmelita), ficou enfurecido com a atitude dela, impensável trabalhar fora, foi lá na empresa, pegou o documentos e disse ao responsável, e ex futuro empregador, "Carmelita não vai trabalhar aqui e em nenhum lugar".
Pronto, decidido.
A luz dos idos de 2019, uma aberração tal atitude, machista, autoritário, etc., mas aos olhos de Dna.Carmelita, isso foi um orgulho, significou proteção, amor e carinho. Ela me contando essa história, disse achar uma bobeira, pois o marido morria de ciúmes dela.
Neste momento a nostalgia e o carinho, somados a emoção da lembrança do marido falecido, se fez presente de maneira muito forte, seus olhos estavam marejados, e ela desabafou: "Que saudades do Alfredo", o grande e único amor de sua vida.
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